No céu da madrugada

Eram três homens procurando por uma espécie rara de ave, ali, na mata fechada. Não sabiam dizer exatamente com o que a ave se parecia, mas haviam ouvido de lendas. O som de água caindo preenchia os ouvidos de cada um deles, mas ainda não conseguiam identificar de onde vinha. Estavam cansados, com sede e fome, e precisavam descansar. A floresta parecia vigiá-los, arisca e irascível. A luz do sol banhava as folhas das árvores com um laranja que se confundia com o verde, criando um espetáculo de luzes no meio do nada. Era quase secreto, e talvez realmente o fosse. Talvez os forasteiros não devessem estar ali, ou pelo menos era o que sentiam.
Procuraram um lugar seguro para passar a noite, embora lugar algum parecesse assim naquele momento. À medida que andavam, o som de água caindo aumentava, e parecia cada vez mais perto, até que acharam, finalmente, a fonte de água. Era um rio que começava com uma cascata, e ia descendo, fazendo curvas até desaparecer de vista. Aquele era um bom lugar, e a floresta parecia mais amigável. Armaram as barracas e acenderam uma fogueira para se protegerem da noite fria. O som do rio e da água batendo na margem logo os fez dormir profundamente, fazendo-os sonhar. E foi esse o sonho que eles sonharam:

Estavam no fundo da floresta, à noite, ouvindo um barulho de água. Precisavam descansar, era o que a mente lhes dizia, mas o corpo parecia estar com todo o vigor. Continuaram suas andanças, até que viram um rastro de fumaça no ar, espiralada, sendo arrastada pelo vento. Talvez fossem outros forasteiros, e com a fogueira apagada, com certeza estavam dormindo. Sentiam-se fortes, e acreditavam que perigo algum seria capaz de detê-los.
Seguiram o rastro de fumaça, e encontraram um rio ou algo parecido. Na verdade, era um rio, mesmo, mas a água passava das margens. Não era como se o rio tivesse transbordado, mas a água parecia saber o que fazia. Viram três rapazes serem arrastados para fora de suas barracas. Viram os rostos daqueles, mas esses eram seus. O corpo gelava, e sentiam algo passando perto do coração. Um aperto, mas não podiam pedir socorro, o medo (antes coragem) não permitia. Tentaram correr e salvar suas vidas, mas havia raízes segurando seus pés.
Sentiram um vento forte passando e olharam para cima, mas tudo o que viram foi um rastro azul claro rasgando o céu escuro da madrugada. Não precisavam distinguir formas, e sabiam que aquele era o pássaro procurado, de uma beleza jamais vista. Ou, pelo menos, ninguém vivera para descrevê-la em detalhes.
Ao olhar para frente, encontraram seus próprios corpos sendo levados para dentro do rio. A baba escorria pelos seus rostos tranquilos, mas conscientes do que estava acontecendo. Os homens presos agora berravam. O estado de medo fora ultrapassado e encontravam agora o desespero, mas nada podia ser feito.
No entanto, de uma coisa todos tinham certeza: aquele era um sono para nunca mais se acordar.

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