Estranhíssimo

typing-i used to have an old electric type-writer (not sure where it is now!) that I would write our family newspaper on.

Um amigo meu vai lançar um livro em Agosto. Publicar um livro sempre foi um sonho para mim. Lembro de ter, sei lá, uns oito anos e que o filho de um colega de trabalho da minha mãe lançou um livro mais ou menos na mesma época. Eram dois livros infantis, com ilustrações feitas por ele mesmo. Eu achei incrível. Por mais que não tenha sido uma puta publicação e que ele não tenho tido reconhecimento, caramba, ele lançou dois livrinhos. Quem sabe o que ele não deve escrever hoje?

Pois é, depois de ter a notícia que esse amigo vai lançar um livro, fui perguntá-lo como foi o processo: escolher a editora, as correções, a capa (que ficou linda), etc. Ele disse que levou alguns “nãos” na cara, mas não desistiu e mandou para outra editora, que acabou aceitando o trabalho dele. Sabe, foi assim com J.K Rowling também. Muitas e muitas editoras rejeitaram o trabalho dela, dizendo que não faria sucesso algum. Ledo engano. O meu problema é não ter uma história (ainda), e também o fato de que não escrevo lá muito bem. Tenho uma escrita mediana, acho que compatível com a minha idade ou eu pelo menos espero isso. Fiquei pensando e pesquisei o óbvio no google: “como escrever um livro?”, e acabei achando alguns artigos bem interessantes, como esse, que te incentiva a se manter criativo, todos os dias. Comecei no mesmo instante e escrevi sobre um acontecimento real. Os outros textos que se seguiram, em sua maioria, também tratavam de acontecimentos reais (pelo menos em parte). Gostei da comicidade que a maioria apresentava. Engraçado que em algum desses artigos que vi por aí dizia para você aceitar: se você é escritor, você é estranho. Engraçado é que antes eu só escrevia ficção e fantasia; hoje em dia coloco algumas coisas reais nos textos, sabe? Pensamentos (muitas vezes os mais bestas).

Vou postar aqui os que eu mais gostei que escrevi na última semana.

Pensando alto

Estavam no carro, pai e filha, diante de um tráfico que só permitia a movimentação do carro alguns metros, às vezes. A filha ficava mais ou menos no meio, entre o banco de trás e o vão entre os dois bancos da frente, com o pai do lado esquerdo. 

                O moço, com seus vinte e nove ou trinta anos, no banco esquerdo da frente acabou murmurando um de seus problemas cotidianos. Talvez fosse o próprio engarrafamento, talvez fossem os problemas no trabalho, mas tanto fazia, por que a filha não escutara muito bem.
                – O que foi, pai?
                -Nada, minha filha. Só pensando alto.
A menina tinha as bochechas enormes e rosadas. Sentou atrás e ficou parada, em silêncio. Pensou em muitas e muitas coisas, como se estivesse gritando dentro da própria cabeça, até que finalmente pergunta:
                – Escutou, pai?

Cabelo, cabelo meu

Eram uns fiozinhos desajustados que não se ajeitavam em lugar algum. Já haviam sido lisos; uma parte, roxa… Já haviam sido longos e curtos. Eram, agora, meio alaranjados, e se sentiam bem assim. Às vezes acordavam de mau humor e não davam trégua com a dona, até que ela, no dia seguinte, acabava indo ao salão e dando um calmante para eles. Calmante de cabelo é diferente de calmante de gente. Calmante de cabelo se chama formol. E eles ficavam calminhos… Mas só durante um mês. Depois disso a personalidade forte do cabelo voltava. Os anéis ruivos voltavam à vida e dela não abriam mão. De uns tempos para cá, a dona dos cabelos se acostumou, e eles têm estado mais próximos, mais amigos.; aprenderam a conversar.
                Tanto que a dona agora nem dá mais calmante para eles.

No meu tempo…

– Mãe, não aguento mais estudar! – disse Joana, deitando a cabeça no livro de Gramática. A menina era inteligente, mas era desleixada. Não era uma das melhores alunas, mas também não era das piores, mas não suportava uma nota baixa! E a mãe responde:
                – Minha filha, não reclame, que na sua idade eu e seus tios íamos para a escola de barco e ainda andávamos mais uma hora na mata fechada, com mosquitos mutantes preparados para o ataque a qualquer hora. Naquela época não existia caderno, não! A gente escrevia em folha de bananeira com um palito chorando gordura de porco, e isso quando tinha. Quando não tinha a gente furava o braço dos coleguinhas e escrevia com sangue. Quando sobrava ainda guardávamos para os dias posteriores, e ai de quem não quisesse ter o braço furado!

E o de hoje:

Água maravilhosa

 Uma sede absurda ecoava dentro da garganta de Cláudio, que não via a hora de chegar em casa e poder beber um bom copo de água. Chegando lá, mal deixou a pasta no sofá e já se dirigia à cozinha da casa, com as mãos ansiosas, a procura de algo que cessasse sua sede. Colocou os olhos em cima de uma garrafa que estava na cozinha, tirou uns comprimidos do bolso, arranjou um copo, encheu-o, e tomou a danada da água. Sentiu um gosto estranho. Talvez o copo estivesse sujo de detergente. Foi perguntar à mulher o que diabo havia acontecido e por que os copos ali não eram bem lavados, quando ela diz:
                – Cláudio, deixe de ser doido, que isso daí é água sanitária!

 

Tenho melhorado com os títulos, hehe.

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Wilde

wilde

Sabe aqueles caras fodas, que você fica “caramba, como esse cara é foda”? Pois é, Oscar Wilde se encaixa nisso.
Aluguei recentemente da biblioteca do meu colégio um livro com alguns contos dele. Eu tinha um volume de “O Fantasma de Canterville e outros contos”, então já havia lido alguns. Até agora, nesse volume, só tem um conto que não tinha no outro livro, mas tem um dos meus favoritos: O Jovem Rei.
Olha, dos contos que eu já li do Wilde, para mim, esse é, de longe, o melhor deles. Caramba, que conto bom, poxa.
Pensando nisso, resolvi compartilhar com vocês, hehe.

Eu tinha colocado aqui, mas o conto é muito grande, então vou só colocar o link de onde pode ser lido aqui. O pdf é bilíngue, é só abaixar um pouquinho que a versão em português vai estar lá 😉

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Mas é fácil ser vaca na Índia

Acontece às vezes, quando passo um bom tempo sem ir na livraria. Eu não sei se existe uma época específica para um “boom” de lançamentos, mas o fato é que ontem fui na Saraiva que tem num shopping perto daqui de casa. Mamãe foi comprar um maiô (tomamos vergonha na cara e vamos tentar fazer exercícios), e depois fomos comer por lá. Adoro esses cafés de livraria, ma$ acontece que nem $empre dá certo fazer um lanchinho nesses lugares. Não tenho muito apego pela Saraiva, acho que por que os livros que ficam em destaque são comumente livros da estante porcaria. Julgo livro pela capa e pelo título, desculpe. Aquelas capas cheias de brilho, com edições mal feitas e até as “pseudo góticas”. É cada capa, viu. Você consegue ver de longe sobre qua lé o assunto, a forma de escrever, a idade… Nem sempre, claro. Mas têm livos que acabo classificando de acordo com a capa. Sei lá, eles tem um jeitinho. Nem sempre são ruins, mas sempre tem aquele jeitinho.

Já tinha ouvido falar de outro livro da Maitê Proença e tinha vontade de ler. Nem sabia que ela ia lançar outro. Acabei me deparando com “É duro ser cabra na Étiopia“. Abrindo o livro, percebi que eram várias historinhas de tom humorístico. Achei bem legal, a maioria realmente me fazia rir no final. Interessante é que acabo não lendo tanta literatura nacional, mas o jeito como os autores desconhecidos escrevem acaba sendo tão bom, que me apeguei.
Acabei não comprando; mamãe estava apressada.

Bem, encontrei uma das historinhas por aí nazinternets, e vou colocar aqui só para vocês terem uma ideia.

“Autor: Ione Valadares
Beliches gigantes

É que a gente já se acostumou com a situação e não pensa mais no assunto. 
Eu não queria assustar vocês, mas não é estranhíssimo dormir?

Está todo mundo na maior agitação durante o dia e quando o sol vai embora 
adotamos a posição horizontal e mergulhamos em um estado de quase catalepsia.
A coisa fica ainda mais estranha se imaginamos a cidade com as ruas vazias 
de madrugada e os prédios como beliches gigantes; todo mundo em sua caminha,
um em cima do outro, aparentemente inofensivos.
Mas depois, acordamos e nos atracamos à nossa rotina como se nada tivesse 
acontecido. Como assim? Acabamos de viver uma incrível cena dramática, ficcional, 
e nada?
Não tinha que ter pelo menos, sei lá, um belo ritual tribal entre uma coisa e outra?”

Entrou para a listinha dos livros que preciso ler, haha.

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Wishlist: livros

lirvos

Aaaah, livros! Eu gosto de ler, mas sou desleixada, hahaha. Eu não sou daquelas que tem o gosto pela leitura forçado. Quando o livro me atrai, leio rápido; quando nem tanto, demoro mais. Não fico me obrigando muito a terminar rápido para ler outros e cada vez mais. Gosto de ler com paciência. Deixa o livro mais gostoso. Mas tem casos em que depende! O Perfume eu ia terminar rapidinho, mas como sempre andava com o livro embaixo do braço, acabei esquecendo em algum lugar. Decepção de uma vida.
Bem, tenho interesse alguns desses livros já faz um tempo. O resto comecei a querer ler recentemente. Mãos à obra!

wishlist livros

1.  O Grande Gatsby (Autor: FITZGERALD, F. SCOTT) – R$25,00
     Depois que assisti ao filme fiquei morreeeendo de vontade de ler. Ainda mais quando dizem que filme nenhum conseguirá passar o que está no papel para as telas.

“Jay Gatsby, o protagonista deste romance, é um generoso e misterioso anfitrião que abre a sua luxuosa mansão às festas mais extravagantes. Quem narra a história, no entanto, é o aristocrata falido Nick Carraway, que vai para Nova York trabalhar como corretor de títulos. Lá, passa a conviver com a prima, Daisy, por quem Gatsby é apaixonado, o marido dela, Tom Buchanan, e outros integrantes da aristocracia tradicional. Ao longo da narrativa, o romantismo obsessivo de Gatsby com relação a Daisy se contrapõe ao materialismo do sonho americano.”

2. O chamado de Chtulhu e outros contos (Autor: LOVECRAFT, H. P.)- R$24,00

Tenho interesse por Lovecraft desde que li Coisas Frágeis, como falei aqui.
‘O chamado de Cthulhu’ reúne desde as primeiras produções de Lovecraft, como ‘Dagon’ até obras escritas logo antes de sua morte, como ‘O assombro das trevas’. Traz ainda o clássico ‘O chamado de Cthulhu’ e ‘A música de Erich Zann’. O volume é um passeio pelo universo de um dos mestres do horror.

3. Dragão Vermelho (Autor: Harris, Thomas) – R$42,90

O interesse começou com a série. E juro que não tenho tanta vontade de ver os filmes. Sei lá por que. Porque sim.

“Dragão Vermelho é o livro de Thomas Harris que deu origem ao canibal Hannibal Lecter personagem encarnado por Anthony Hopkins, em “Silêncio dos Inocentes” e “Hannibal”. Enquanto no romance O silêncio dos inocentes o médico psicopata Hannibal Lecter envolve em uma teia mortífera e sedutora uma bela agente do FBI, em Dragão vermelho ele reencontra Will Graham, o homem que o mandou para a prisão.”

4. Coraline (Autor: Gaiman, Neil) – R$48,00

Aaah!, o divo, hehehe. Também venho querendo ler este aqui já faz algum tempinho. Coraline, amor, me espere!

“‘Coraline’ é um conto de fadas às avessas no qual a jovem descobre uma porta para um misterioso apartamento no prédio para onde acabou de se mudar.”

 

Golias

Divo, apns.

Bem, não fiz muitos posts essa semana no blog, talvez por falta de assunto. Não só aqui, na vida mesmo. Por que eu escrevo aqui coisas que vi, experimentei ou que talvez ainda queira ter/fazer. Quero atualizar acontecimentos que eu disse que ia fazer e realmente fiz: terminei de ler Coisas Frágeis 2. Demorei um pouquinho mais para ler esse, mesmo sendo menor, acho que por preguiça mesmo. A capa é linda, e contém alguns poemas, diferente do Coisas Frágeis original, que não tem nenhum. Mesmo assim, tendo algo diferente, prefiro infinitamente o primeiro Coisas Frágeis. Acho que talvez tenha sido um compilado dos melhores contos, por isso ficou tão bom. O 2 talvez tenha sido a junção de vários contos bons, mas talvez não os melhores. Digo isso, mas não quer dizer que não tenha nenhum conto que se iguale em qualidade aos do primeiro livro. Recomendo a leitura, é ótimo, mas achei Coisas Frágeis melhor ainda.
Bem, falando em Neil Gaiman, sei que muitos não tem oportunidade de pegar num livro assim (se souber procurar vai encontrá-los bem baratos, mas na Livraria Cultura cada um custava R$49,00), então resolvi postar um dos contos que mais gostei. Só para dar o gostinho.
Esse conto foi baseado no roteiro original de Matrix (que inclusive assisti faz pouco tempo… sou uma herege) e ficou lá na página oficial do site durante bastante tempo.

““Querem que você escreva uma história”, minha agente disse, há alguns
anos. “É para o site de um filme que ainda não estreou, chamado Matrix. Vão te
mandar o roteiro.” Depois de lê-lo com bastante interesse, escrevi esta narrativa,
que foi postada na internet cerca de uma semana antes da estréia do filme, e
continua lá.””


É meio grande, mas vale cada segundo.

Golias

ACHO QUE POSSO AFIRMAR SEMPRE TER SUSPEITADO QUE O MUNDO
fosse uma farsa barata e tosca, um péssimo disfarce para algo mais profundo,
mais esquisito e infinitamente mais estranho, e de alguma forma sempre ter
sabido a verdade. Mas acho que isso é apenas o que o mundo sempre foi. E
mesmo agora que sei a verdade — como você vai saber, meu amor, se estiver
lendo isto — continuo achando o mundo barato e tosco. Um mundo diferente,
tosco diferente, mas é o que me parece.

Eles dizem: Esta é a verdade, e eu pergunto: E só isso?E eles respondem:
Mais ou menos. Basicamente. Até onde sabemos.

Bem. Foi em 1977, e o mais perto que eu já tinha chegado de um
computador foi quando comprei uma calculadora grande e cara, mas perdi o
manual de instruções, portanto, não sabia o que ela fazia. Eu somava, subtraía,
multiplicava e dividia, e dava graças a Deus por não precisar calcular senos, cosenos, tangentes ou usar funções gráficas, ou sei lá o que mais a engenhoca
fazia, porque, tendo sido recentemente rejeitado pela RAF,11 estava trabalhando
como guarda-livros num pequeno depósito que vendia tapetes a preços
populares em Edgware, no norte de Londres, perto do fim da Linha Norte. Eu
fingia não me incomodar sempre que via um avião no céu, não me importar
com a existência de um mundo do qual o meu tamanho me impedia de fazer
parte. Eu simplesmente anotava números num grande livro contábil. Estava
sentado nos fundos do depósito, à mesa que eu usava como escrivaninha,
quando o mundo começou a derreter.

Sério. Era como se as paredes, o teto, os rolos de carpete e o calendário
do News of the World12 com uma moça seminua fossem todos feitos de cera,
11 Royal Air Force — Força Aérea inglesa. (N. T.) 12 Tablóide sensacionalista inglês. (N. T.) começassem a escorrer, misturando-se em uma coisa só. Eu podia ver as casas, o céu, as nuvens e a estrada lá fora, e tudo aquilo escorria e gotejava, e por trás só havia escuridão.

Eu estava de pé sobre a pocinha do mundo — uma coisa esquisita, um
emaranhado de cores vivas —, que não chegava a cobrir os meus sapatos de
couro marrom. (Meus pés são do tamanho das caixas de sapatos. Sou obrigado
a mandar fazer botas sob medida. Custam uma fortuna.) A pocinha emitia uma
luz estranha.

Numa história de ficção, acho que teria me recusado a acreditar que
aquilo estava acontecendo, teria me perguntado se tinha sido drogado ou se
estava sonhando. Na realidade, caramba, eu estava lá e aquilo era real, então
olhei para cima na escuridão e depois, como nada aconteceu, comecei a andar
naquele mundo líquido, gritando para ver se havia mais alguém ali.
Algo piscou na minha frente.

— E aí, cara? — disse uma voz. O sotaque era americano, embora a
entonação fosse estranha.

— Olá — respondi.

A imagem continuou a piscar por alguns momentos, e em seguida
assumiu os contornos de um homem elegantemente vestido, com óculos
grossos.

— Você é bem grandão, sabia? — observou ele

Claro que eu sabia. Na época, eu tinha 19 anos e já media mais de 2,10
metros. Meus dedos parecem bananas. Eu assusto criancinhas. Dificilmente
chegarei aos 40 anos: pessoas como eu morrem novas.

— O que está acontecendo? — perguntei. — Você sabe?

— Um ataque inimigo atingiu uma unidade de processamento central

— contou ele. — Duzentas mil pessoas, conectadas em paralelo, viraram
churrasco. Temos um mirror13 preparado, é claro, e tudo estará funcionando
13 Cópia exata de um conjunto de dados, muito usada principalmente em sites
da internet como redundância, em caso de falha no site principal. (N. T.)
novamente num instante. Você só está flutuando aqui por alguns
nanossegundos, até que Londres volte a processar.

— Você é Deus? — perguntei. Nada do que ele dissera fazia o menor
sentido pra mim.

— Sim. Não. Não exatamente — ele explicou. — Pelo menos não como
você imagina.

E aí o mundo estremeceu e me vi indo para o trabalho de novo naquela
manhã: tomei uma xícara de chá e tive o mais longo e estranho ataque de déjà vu da minha vida: vinte minutos durante os quais eu sabia tudo o que todos iam
fazer ou dizer. E aí passou, e o tempo voltou a correr normalmente, um
segundo após o outro, como se espera que eles façam.

E as horas passaram, e os dias, e os anos.

Perdi o emprego na loja de tapetes e arrumei outro, como guarda-livros
de uma empresa que vendia máquinas de escritório. Casei-me com uma garota
chamada Sandra, que conheci na piscina do clube, e tivemos um casal de filhos,
os dois de estatura normal, e eu achava que tinha um casamento que poderia
sobreviver a qualquer coisa, mas não tinha, e, assim, um dia ela foi embora e
levou as crianças. Eu estava com 20 e tantos anos, já era 1986, e arrumei
emprego numa lojinha na Tottenham Court Road como vendedor de
computadores, e descobri que era bom nisso.

Eu gostava de computadores.

Ficava admirado com tudo o que eles podiam fazer. Era uma época
empolgante. Eu me lembro da nossa primeira remessa de ATs, alguns com
discos rígidos de 40 megabytes… Bem, eu me impressionava facilmente na
época.

Ainda morava em Edgware, ia para o trabalho pela Linha Norte. Estava
no metrô uma noite, voltando para casa — o trem acabara de passar por Euston
e metade dos passageiros descera —, e, por cima do meu Evening Standard, eu olhava para as outras pessoas no vagão e me perguntava quem elas eram, quem realmente eram, lá no íntimo: a garota negra e magrinha que, ansiosa, escrevia em seu caderno, a velhinha com um chapéu de veludo verde, a moça com o cachorro, o homem barbado de turbante…

O trem parou no túnel.

Bem, foi o que pensei que tivesse acontecido: pensei que o trem tivesse
parado. Tudo ficou silencioso.

E aí o trem passou por Euston e metade dos passageiros desceu.

E aí o trem passou por Euston e metade dos passageiros desceu. E eu
olhava para os outros passageiros e me perguntava quem eles realmente eram,
lá no íntimo, quando o trem parou no túnel e tudo ficou silencioso.

E aí tudo estremeceu tão forte que eu pensei que outro trem tinha
batido no nosso.

E aí o trem passou por Euston e metade dos passageiros desceu, e aí o
trem parou no túnel, e aí tudo ficou…

(O serviço voltará à normalidade assim que for possível, sussurrou uma voz
dentro da minha cabeça.)

E dessa vez, quando o trem diminuiu a velocidade e começou a se
aproximar de Euston, eu me perguntei se tinha enlouquecido: senti que estava
preso num loop de vídeo. Eu sabia que aquilo estava acontecendo, mas não
podia fazer nada para mudar, nada para sair daquele estado.

A garota negra sentada ao meu lado me passou um bilhete: A GENTE
MORREU?

Dei de ombros. Não sabia. Parecia uma boa explicação.

Lentamente, tudo foi ficando branco.

Não havia chão sob meus pés, nada acima de mim, nenhum referencial
de distância ou de tempo. Eu estava num lugar branco. E não estava só.

O homem usava óculos grossos e um terno que parecia ser um Armani.

— Você de novo? — perguntou. — O grandalhão. Acabei de falar com
você.

— Acho que não — eu disse.

— Foi há meia hora. Quando o ataque nos atingiu.

— Na fábrica de tapetes? Foi há anos. Muito tempo atrás.

— Foi há cerca de 37 minutos. Estamos processando em modo
acelerado desde então, tentando ajeitar as coisas, enquanto pensamos em
soluções potenciais.

— Quem desferiu o ataque? — perguntei. — A União Soviética? Os
iranianos?

— Alienígenas — ele respondeu.

— Está brincando?

— Pelo que me consta, não. Já estamos mandando sondas há uns
duzentos anos. Parece que algo seguiu uma delas na volta. Ficamos sabendo
quando aconteceu o primeiro ataque. Levamos bem uns vinte minutos para
preparar e implementar um plano de retaliação. Por isso estamos processando
em modo acelerado. A última década pareceu passar voando?

— Sim. Acho que sim.

— Foi por isso. Nós a passamos bem depressa, tentando manter uma
realidade comum enquanto co-processávamos.

— E o que vocês vão fazer?

— Contra-atacar. Acabar com eles. Mas vai levar algum tempo: ainda
não temos o equipamento. Precisamos construí-lo.

O branco começou a sumir, transformando-se em manchas rosa-escuro
e de um vermelho sem brilho. Abri os olhos. Pela primeira vez. Sufoquei. Era
informação demais.

Então. O mundo era acre, cheio de tubos entrelaçados, estranho, escuro,
um lugar inacreditável. Não fazia sentido. Nada fazia sentido. Era real, e era um
pesadelo. Durou trinta segundos, e cada segundo frio pareceu uma pequena
eternidade.

E aí o trem passou por Euston e metade dos passageiros desceu…

Comecei a conversar com a garota negra do caderno. Seu nome era
Susan. Algumas semanas depois, ela veio morar comigo.

O tempo estremeceu e avançou. Acho que eu estava ficando sensível a
ele. Talvez soubesse o que eu estava procurando — sabia que havia algo a se
procurar, mesmo sem saber o que era.

Certa noite, cometi o erro de contar a Susan uma parte do que eu
acreditava — que nada daquilo era real. Que na verdade estávamos todos
pendurados, plugados, conectados, unidades centrais de processamento ou
apenas chips baratos de memória em algum computador do tamanho do
mundo, vivendo numa alucinação consensual que nos mantém contentes, que
nos proporciona a comunicação e o sonhar usando a pequena fração do nosso
cérebro que não era utilizada por eles — sejam lá quem eles fossem — para
processar números e armazenar informações.

— Somos memória — conclui. — É isso que nós somos. Memória.

— Você não acredita nisso de verdade, não é mesmo? — ela disse,
perplexa, — É uma história.

Quando fazíamos amor, ela sempre queria que eu fosse bruto, mas
nunca me atrevi. Eu desconhecia a minha força, e sou tão desajeitado. Não
queria machucá-la.

Eu nunca quis machucá-la, por isso parei de lhe contar minhas idéias,
tentei fazer o mal-estar passar, fingir que fora só uma piada, mas uma piada
sem graça…

Não adiantou. Ela se mudou no fim de semana seguinte.

Senti falta dela, profunda e dolorosamente. Mas a vida continua.

Os momentos de déjà vu aconteciam mais freqüentemente. Momentos
gaguejavam, soluçavam, falhavam e se repetiam. Às vezes uma manhã inteira
se repetia. Uma vez, perdi o dia todo. O tempo parecia estar desmoronando por
completo.

E, então, acordei certa manhã e era 1975 de novo, eu tinha 16 anos, e
depois de um dia infernal na escola, saí e fui até o escritório de recrutamento da
RAF, ao lado do restaurante turco da Chapel Road.

— Você é bem alto — comentou o oficial de recrutamento. De início,
achei que fosse americano, mas ele afirmou ser canadense. Usava óculos
grossos.

— Sim — eu disse.

— E você quer voar?

— Mais do que tudo. — Eu parecia ter uma vaga lembrança de um
mundo no qual eu esquecera que queria ser piloto de avião, algo que eu achava
tão estranho quanto esquecer meu próprio nome.

— Bem — explicou o homem de óculos grossos -, vamos precisar
ignorar algumas regras. Mas vamos pôr você no ar bem rápido. — E ele estava
falando sério.

Os anos seguintes passaram muito depressa. Tive a sensação de viver
todos eles em aviões de vários tipos, apertado em cabines minúsculas, em
assentos onde eu mal cabia, mexendo em botões pequenos demais para os meus dedos.

Deram-me acesso ao nível de confidencialidade Secreto, depois ao nível
Nobre, que deixa o Secreto a ver navios, e aí passei para o nível Gracioso, a que o próprio primeiro-ministro não tem acesso, e àquela altura eu já estava
pilotando discos voadores e outras aeronaves que se deslocavam sem nenhum
meio de propulsão visível.

Comecei a namorar uma garota chamada Sandra, e nós nos casamos,
porque assim teríamos direito à moradia de casal, que era uma bela casa
geminada perto de Dartmoor. Nunca tivemos filhos. Avisaram-me que existia a
possibilidade de eu ter sido exposto a radiação suficiente para fritar minhas
bolas, e parecia sensato não ter filhos nessas circunstâncias: não queríamos criar monstros.

Foi no ano de 1985 que o homem dos óculos grossos entrou na minha
casa.

Naquela semana, minha esposa estava na casa da mãe. As coisas
tinham ficado meio tensas, e ela saíra de casa para poder “respirar”. Sandra
disse que eu lhe dava nos nervos. Mas, se eu estava dando nos nervos de
alguém, acho que era nos meus mesmo. Parecia que eu sabia o que ia acontecer o tempo todo. Não só eu: parecia que todos sabiam o que ia acontecer. Como se fôssemos sonâmbulos, vivendo a vida pela décima, vigésima ou centésima vez.

Eu queria contar para Sandra, mas sabia que não deveria fazê-lo, que eu
a perderia se abrisse a boca. No entanto, parecia que eu ia perdê-la de qualquer
maneira. Assim, eu estava na sala de estar, vendo The Tube no Channel Four e
tomando chá, e sentia pena de mim mesmo.

O homem dos óculos grossos entrou na minha casa como se fosse a dele
e olhou para o seu relógio.

— Muito bem — disse. — É hora de ir. Você vai pilotar algo bem
parecido com um PL-47.

Nem quem tinha o nível Gracioso deveria saber do PL-47. Eu pilotara
um protótipo algumas vezes. Parecia uma xícara e voava como uma daquelas
naves de Guerra nas Estrelas.

— Não seria melhor deixar um bilhete para Sandra? — perguntei.

— Não — ele respondeu secamente. — Agora sente-se no chão e respire
profunda e regularmente. Inspire, expire, inspire, expire.

Nunca me ocorreu discutir com ele ou desobedecer-lhe. Sentei no chão
e comecei a respirar, lentamente, inspirando e expirando e expirando e
inspirando e…
Inspirando.
Expirando.
Inspirando.
Um espasmo. A pior dor que já senti. Eu sufoquei.
Inspirando.
Expirando.
Eu estava gritando, mas podia ouvir minha voz, e não estava gritando.
Só conseguia ouvir um gemido fraco, borbulhante.
Inspirando.
Expirando.

Foi como nascer. Nem confortável, nem prazeroso. Foi a respiração que
me fez suportar toda a dor, a escuridão e o borbulhar nos pulmões. Abri os
olhos. Eu estava deitado num disco de metal de cerca de 2,5 metros de
diâmetro. Estava nu, encharcado, e rodeado por um feixe de cabos. Eles se
recolhiam, se afastavam de mim, como vermes assustados ou cobras nervosas,
de cores vivas.

Olhei para o meu corpo. Nenhum pêlo, nem cicatrizes, nem rugas. Eu
me perguntei qual seria a minha verdadeira idade. Dezoito anos? Vinte? Não
dava para saber.

Havia uma tela de vidro embutida no chão do disco de metal. Ela
piscou e se acendeu. Eu estava olhando para o homem dos óculos grossos.

— Você se lembra? — ele perguntou. — Você deveria ser capaz de
acessar a maior parte da sua memória, pelo menos por enquanto.

— Acho que sim — respondi.

— Você vai pilotar um PL-47 — ele disse. — Acabamos de construí-lo.

Tivemos que voltar para boa parte dos princípios e avançar novamente.
Modificar algumas fábricas para construí-lo. Outro lote deles estará pronto
amanhã. No momento, só temos um.

— Então, se esse não funcionar, vocês vão ter mais para eu pilotar.

— Se sobrevivermos até lá. Outro ataque começou há 15 minutos.
Arrasou a maior parte da Austrália. Calculamos que ainda seja só uma amostra
do verdadeiro ataque.

— O que eles estão jogando? Bombas nucleares?

— Pedras.

— Pedras?

— Arrá. Pedras. Asteróides. Dos grandes. Achamos que amanhã, a
menos que nos rendamos, vão jogar a Lua em nós.

— Você está brincando.

— Quem dera. — A tela se apagou.

O disco de metal sobre o qual eu estava começou a navegar através de
um emaranhado de cabos e um mundo de pessoas nuas, adormecidas. Ele
deslizou sobre angulosas torres de microchips que acabavam em pontas de
silicone de brilho suave.

O PL-47 estava à minha espera no alto de uma montanha de metal.
Pequenos caranguejos metálicos percorriam sua superfície, polindo e
verificando cada rebite e cada porca.

Entrei nele andando com pernas que, por falta de uso, tremiam e
cambaleavam, sem agilidade alguma. Sentei no assento do piloto e fiquei feliz
ao ver que fora feito sob medida para mim. Servia. Afivelei o cinto. Minhas
mãos começaram a realizar a seqüência de aquecimento. Cabos serpentearam
sobre meus braços. Senti alguma coisa se plugando na base da minha espinha, e outra coisa entrando e se conectando no alto do meu pescoço.

Minha percepção da nave expandiu-se radicalmente. Eu via em 360
graus, acima e abaixo. Eu era a nave e, ao mesmo tempo, estava sentado na
cabine, ativando os códigos de lançamento.

— Boa sorte — disse o homem dos óculos grossos numa pequena tela à
minha esquerda.

— Obrigado. Posso fazer uma última pergunta?

— Não vejo por que não.

— Por que eu?

— Bem, a resposta mais objetiva é que você foi projetado para fazer
isso. Melhoramos um pouco o design humano básico no seu caso. Você é maior.

É muito mais rápido. Sua velocidade de processamento e seu tempo de reação
são mais desenvolvidos.

— Não sou mais rápido. Sou grande, mas desajeitado.

— Não na vida real. Você só é assim no mundo.

E eu decolei.

Não cheguei a ver os alienígenas, se é que havia alienígenas, mas vi a
nave deles. Parecia um fungo ou uma alga: era toda orgânica, uma coisa
enorme, cujo brilho pulsava como um coração, orbitando a Lua. Parecia algo
que você espera ver num tronco podre, semi-submerso no mar. Era do tamanho
da Tanzânia.

Tentáculos pegajosos, de 300 quilômetros de comprimento, arrastavam
asteróides de vários tamanhos. Eles me lembravam um pouco os tentáculos de
uma caravela-portuguesa, aquela estranha criatura marinha composta: quatro
organismos inseparáveis que sonham ser um só.

Eles começaram a jogar pedras em mim quando eu estava a uns 300 mil
quilômetros de distância.

Enquanto meus dedos ativavam o compartimento de mísseis e eu
mirava em um núcleo que flutuava dentro da nave, me perguntei o que estava
fazendo. Não estava salvando o mundo que conhecia. Aquele mundo era
imaginário: uma seqüência de zeros e uns. Se eu estava salvando alguma coisa, era um pesadelo…

Mas se o pesadelo morresse, o sonho morreria também.

Havia uma garota chamada Susan. Eu me lembrava dela de uma vida
fantasma, perdida fazia muito tempo. Será que ainda estava viva? (Teria sido
algumas horas antes? Ou algumas vidas?) Imaginei que ela estivesse pendurada por cabos, careca, em algum lugar, sem nenhuma lembrança de um gigante miserável e paranóico.

Eu estava tão perto que conseguia ver os detalhes da pele da criatura.
As pedras estavam ficando menores e mais precisas. Eu fugia delas em
ziguezagues e manobras radicais. Uma parte de mim estava simplesmente
admirando a economia daquela coisa: nada de explosivos que custavam uma
fortuna, nada de lasers, nada de ogivas nucleares. Apenas a boa e velha energia cinética: pedras enormes.

Se uma daquelas atingisse a nave, eu morreria. Era simples assim.

O único jeito de evitá-las era ser mais rápido do que elas. Então eu
continuava fugindo.

O núcleo olhava para mim. Era um tipo de olho. Eu tinha certeza.
Eu estava a menos de cem metros dele quando disparei a carga. Depois
fugi.

Ainda pude ver quando a coisa implodiu. Era como fogos de artifício —
bonito, de um jeito meio fantasmagórico. E não sobrou nada senão um fraco
rastro de brilho e pó…

— Consegui! — gritei. — Consegui! Consegui, caralho!

A tela piscou. Os óculos grossos estavam me olhando. Não havia mais
um rosto de verdade por trás deles. Apenas um semblante de preocupação e
interesse, como um desenho animado borrado.

— Você conseguiu — ele concordou.

— E agora, como é que eu pouso esta coisa? — perguntei. Houve uma
hesitação, e então:

— Não vai pousar. Não projetamos a nave para voltar. Era um recurso
do qual não precisávamos. Dispendioso demais em termos de materiais.

— E o que eu faço, então? Acabei de salvar o planeta. E agora vou
morrer asfixiado aqui?

Ele fez que sim:

— Basicamente, é isso. Sim.

As luzes começaram a diminuir. Um a um, os controles estavam se
apagando. Perdi a percepção em 360 graus da nave. Era apenas eu, amarrado
numa cadeira no meio do nada, dentro de uma xícara voadora.

— Quanto tempo me resta?

— Estamos desligando todos os seus sistemas, mas você ainda tem pelo
menos umas duas horas. Não vamos evacuar o ar que lhe resta. Isso seria
desumano.

— Sabe, no mundo de onde vim, eu ganharia uma medalha.

— Obviamente, estamos gratos.

— E não conseguem pensar numa forma mais palpável de expressar
sua gratidão?

— Na verdade, não. Você é uma peça descartável. Uma unidade. Não
podemos lamentar sua morte mais do que um vespeiro lamentaria a morte de
uma única vespa. Não é sensato nem viável trazer você de volta.

— E não querem todo este poder de fogo voltando para a Terra, onde
ele poderia ser usado contra vocês, não é mesmo?

— É você quem está dizendo.

E então a tela se apagou, sem nem um adeus. Não ajuste o seu televisor,
pensei. O problema é com a realidade.

Você fica bem consciente da sua respiração quando só restam duas
horas de oxigênio. Inspira. Segura. Expira. Segura. Inspira. Segura. Expira.
Segura…

Fiquei sentado ali, no meu assento, na penumbra, e esperei e pensei. Aí
eu disse:

— Alô? Tem alguém aí?

Uma pausa. Linhas apareceram na tela.

— Sim?

— Eu tenho um pedido. Escutem. Vocês, pessoas, máquinas, sei lá o
que são, me devem uma, certo? Afinal, salvei todos vocês.

— Prossiga.

— Ainda tenho umas duas horas, certo?

— Cerca de 57 minutos.

— Vocês podem me conectar de volta à… à realidade? Ao outro mundo?
Aquele de onde vim?

— Hm? Não sei. Vou verificar. — A tela se apagou de novo.

Fiquei ali, respirando, inspira e expira, inspira e expira, enquanto
esperava. Eu me sentia muito tranqüilo. Se não fosse pelo fato de que me
restava menos de uma hora de vida, estaria ótimo.

A tela brilhou. Não havia imagem, nem desenho, nem nada. Só um
brilho suave. E uma voz, meio na minha cabeça, meio fora, anunciou:

— De acordo.

Senti uma dor aguda na base do crânio. Depois, escuridão, por vários
minutos.

E depois, isto.

Tudo isso foi há 15 anos: em 1984. Voltei a trabalhar com computadores. Tenho uma loja na Tottenham Court Road. E, agora que nos aproximamos do novo milênio, estou escrevendo isto. Desta vez, casei-me com Susan. Levei alguns meses para encontrá-la. Nós temos um filho.

Estou com quase 40 anos. Pessoas como eu não vivem muito mais do que isso, de maneira geral. O coração pára. Quando você ler isto, já estarei morto. Você saberá que estou morto. Terá visto um caixão grande o suficiente para duas pessoas entrando num buraco.

Mas saiba de uma coisa, Susan, meu amor: meu verdadeiro caixão está
orbitando a Lua. Parece uma xícara voadora. Eles me devolveram o mundo, e
você, por um tempinho. Da última vez que contei a você, ou a alguém como
você, a verdade, ou o que eu sabia dela, você me abandonou. E talvez aquela
não fosse você, e eu não fosse eu, mas não me atrevo a arriscar de novo.
Portanto, escrevo isto, e você vai recebê-lo junto com o resto dos documentos
quando eu me for. Adeus.

Eles podem ser uns canalhas sem coração, insensíveis, computadorizados, vampirizando as mentes do que resta da humanidade. Mas não posso deixar de me sentir grato a eles.

Eu vou morrer logo. Mas os últimos vinte minutos foram os melhores
anos da minha vida.