Poeira

Lagoon Nebula

Cês sabem que isso aqui fica abandonado de tempos em tempos, né? Por isso ‘cês deviam acompanhar lá no Facebook a página do blog, que inclusive tem uma foto brega no avatar. Mas enfim, tenho um post pra hoje, o que meio que compensa. É um conto que escrevi para um concurso do colégio. Se chama Poeira. Espero que gostem.

Era agora, finalmente, sua época do ano. Três meses sendo o ser mais importante de toda a região – e com região se referia à maioria do hemisfério norte- sem sequer ser notado. Mais importante que os governadores, com mais tarefas que os presidentes, influenciando mais a cabeça das pessoas do que o próprio Papa. Era um dos quatro que estavam sempre ali, mesmo que alternando. Era a estação esquecida.
            Era Outono.
            Verão era a estação do calor, da diversão, de longe a preferida das pessoas jovens. Primavera movimentava muito o mercado, com todas as suas belíssimas tulipas, prímulas e camélias. Inverno era considerada a estação mais triste de todas e, por isso, a mais romântica. Era a estação da perdição, das cenas infelizes que muitas vezes construíam histórias. Mas o que era Outono?
            Ele considerava a si mesmo como a estação do adeus. Era o adeus aos momentos felizes do Verão; era a passagem que antecedia a tristeza de Inverno.
            Outono tinha os cabelos vermelho-amarronzados, exatamente da mesma cor das folhas de plátano, tão famosas naquela época. Caminhava entre os mortais normalmente, sendo jamais ou poucas vezes notado quando aparecia com mais frequência durante aqueles três meses. A boca estava sempre fechada, ficando, às vezes, na iminência de movimento, mas nada mais. O fato de raramente proferir qualquer coisa o deu, com o tempo, a capacidade da mais ampla observação. Conseguia, em menos de um segundo, identificar um sorriso mordaz no canto da boca de um moço qualquer falando à parceira.
            Uma infidelidade jamais revelada.
            Isso acontecera anos atrás, Outono bem lembrava.
            Mas ainda havia o mesmo sorriso no canto da boca.
            Estudava os humanos com singular interesse. Gostava mesmo daquelas pessoas; não de quem elas eram. Dançarinos, músicos, empresários; seus interesses passavam longe disso. Gostava da essência humana, do mal e do bem, do certo e do errado. Em suma, admirava qualquer ação e reação da humanidade. Outrora já experimentara sentimentos humanos, vontades, mas não podia, sabia que um maior envolvimento acabaria na sua morte. Era proibido que as Estações possuíssem qualquer preferência por uma pessoa em especial. Dessa forma, foi criado um mecanismo que implicava na dor de qualquer um que se envolvesse dessa forma com a humanidade.
            Uma vez vira uma simples folha seca ocasionar as mais felizes vidas, resultando posteriormente em uma filha, tendo a menina guardado a folha em um caderno de lembranças até a mocidade. Já presenciara acontecimentos que a humanidade acreditava  serem impossíveis. Seres de lugares inimagináveis, tão remotos como nunca saberemos.
            Outono refletia que tudo aquilo era passado, e que logo seria esquecido, que tudo retornaria ao pó, exatamente da forma que veio. Por que tudo era nada mais que isso.
            Poeira.
            Absolutamente tudo conhecido até o momento, pensava, não passava de um grande aglomerado de átomos. O Universo feito de partículas que, se colocadas sozinhas, são invisíveis a olho nu. Partículas essas que se amontoam por conta de uma força ainda mal compreendida. Perdidos no espaço, tocando o chão, um chão feito do que a humanidade também era feita. Soltos, com a Terra girando a trinta quilômetros por segundo, e se ela, por algum motivo, deixa-os ir, estariam perdidos. Se a força que os agrupa um dia deixar de fazê-lo, então o que existirá?
            Outono pensava que todos acabariam por se sentir da mesma forma que ele se sentira durante toda a sua existência.
            Um sentimento de adeus.

Agora, ele começa de um jeito e termina de outro completamente diferente. Isso por que eu queria criar Outono e não sabia o que fazer. Então acho que ainda vou escrever várias coisas sobre ele.

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